Preacher

E aí?”. “Como assim, e aí?”. “E aí, vai me contar o que aconteceu em Masada?”. “Ah, bom, deixe-me ver: tinha um anjo, uma puta, um eunuco, várias dúzias de idiotas, um irlandês que não morria, um Homem-Holocausto com um sobretudo, um ou outro banquete de 20 pratos em nome da mãe de todos os fodidos glutões, relações incestuosas, desentendimentos familiares, bulimia, uma criança retardada – o que é sempre bom para dar risada – e a destruição absoluta de nosso altar mais sagrado e retiro secreto com a detonação de uma bomba de 50 toneladas. E tinha também Jesse Custer …

Jesse Custer, personagem principal da série “Preacher”, minha História em quadrinhos favorita do meu selo favorito, Vertigo, é um pastor possuído por uma entidade nascida do cruzamento entre um anjo e um demônio capaz de meter medo ao próprio Deus pai todo-poderoso – que é um grandessíssimo filho da puta, diga-se de passagem – que roda o mundo a partir do Texas acompanhado de sua namorada especialista em armas, Tulipa, e de seu amigo vampiro irlandês, Cassidy. À procura Dele – Ele mesmo, EL, ELOAH, ELOHIM, EL SHADDAI, ADONAI, YHWH / YAHWEH / JEOVÁ, JEOVÁ-JIRÉ – que abandonou o paraíso, ele se depara com o Cara de Cu, um garoto reprimido com sérias sequelas de uma tentativa de suicídio motivada pelos abusos que sofreu de seu pai, um xerife durão, e pelo exemplo de Kurt Cobain; o Santo dos Assassinos, um pistoleiro do velho oeste ressuscitado; a família que o criou à base de castigos como ficar submerso num caixão no pântano da Louisiana apenas por falar palavrões; e Herr Starr, protagonista do diálogo acima, que é membro de uma seita superpoderosa encarregada de resguardar a linhagem do cordeiro, manifesta num garoto retardado descendente direto de Jesus Cristo destinado a ser o novo Messias.

Preacher está prestes a ser adapatado para a TV pela mesma emissora responsável pelos grandes sucessos de crítica e público “Breaking Bad” e “The Walking Dead” – esta última igualmente originária de uma série em quadrinhos. É publicada atualmente no Brasil de forma impecável, em capa dura e papel couchê com impressão de primeira, pela Panini Comics.

Desnecessário dizer que recomendo muito.

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Woman is the nigger of the world

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“Ai, tô tão feliz!” Daniela Rodrigues, vocal e guitarra da Renegades of punk, parecia tão embriagada ao dizer isso que eu não resisti e lhe perguntei – em tom de brincadeira, claro, porque sei que ela não viaja nessa “onda” – se ela havia usado drogas. A resposta foi ótima: “Nada, eu me embriago na vida real. Pena que amanhã tudo acaba e a vida volta ao “normal”. Completou dizendo que nunca mais havia visto um evento Underground/punk/alternativo assim em Aracaju, com boa participação de público e público participativo, animado, interessado. Concordo, muito embora ache o público aracajuano nem sempre ausente e “morno”, mas inconstante e imprevisível – às vezes lota e a noite é ótima, às vezes não dá ninguém e a morgação toma conta, às vezes dá pouca gente mas é animado, sem nenhuma explicação aparente – ou convincente.

O cenário é preocupante, no entanto, eu concordo, e por isso mesmo foi realmente muito bom ver uma iniciativa tão nobre ser abraçada com o entusiasmo que foi visto na última noite de sábado, na Caverna do Jimi Lennon. Tudo na base do bom e velho “faça você mesmo”. Era uma noite comemorativa ao Dia Internacional da Mulher e lá, já de cara, os que compareceram eram recepcionados por uma banquinha de produtos alternativos com uma boa variedade de materiais, de discos de vinil – dentre eles uma impressionante coletânea com bandas punk HC de São Paulo gravada e produzida nos estúdios de nosso camarada Thiago Babalu – a fanzines – dentre eles um inusitado relançamento de duas edições (uma de cada) do Buracaju, editado dos anos 80 à primeira metade dos 90 do século passado por Silvio da Karne Krua, e do Escarro Napalm, que circulou entre 1991 e 1995 em tiragens de 100 a 150 cópias xerocadas e era produzido por este que vos escreve.

As apresentações começaram com grande atraso com a Renegades, que mandou muito bem, como sempre. Continuou com algumas declamações de poesias e improvisos – um rap, por exemplo – e então tivemos a Oldscratch, surpreendente banda de Alagoas bastante influenciada pelo que de melhor o rock alternativo guitarreiro e barulhento com vocais femininos nos deu na década de 1990, tipo Babes in Toyland, Bikini Kil, L7 e 7 Year Bitch. Encerrando a noite, já perto das 3 da matina, o punk rock cruzão com pitadas de Hardcore e grindcore da Útero Kaos, de São Cristóvão, que levantou os punks “raw” e promoveu uma animada roda de pogo. Destaque para a perfomance visceral de Kelly, a vocalista. Aliás, a título de curiosidade e cultura inútil – porque no final das contas somos todos cidadãos do mundo, e só – ela é de Itabaiana. Eu e a Dani “renegades” também. Quando eu falo que um dia vamos dominar o mundo, ninguém acredita …

BRINCADEIRINHA …

A

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ECCE HOMO

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Fui surpreendido recentemente por dois resgates de meu trabalho da época em que o Escarro Napalm era um fanzine xerocado distribuído via correio: primeiro o camarada Aquino relançou uma das edições do Escarro, a número 6, lançada há já longínquos 20 anos durante o Festival BHRIF, em Belo Horizonte. Foi bem legal vê-lo novamente à disposição numa banquinha de publicações alternativas de um evento “underground”. Depois o blog “Noisey”, da revista eletrônica Vice, me solicitou uma entrevista que foi publicada como parte da série “Zine é compromisso”, que você pode ler AQUI. Muito bom ver que algo que eu comecei de forma tão despretensiosa na década de 1980 em Itabaiana, interior de Sergipe, ainda desperta interesse, tantos anos depois.

Recebi também a visita nos estúdios da Aperipê FM, durante o programa de rock, da equipe do site “Cultura Interativa”, para uma entrevista muito bacana que você pode ouvir AQUI. Aproveitei para também entrevistá-los ao vivo durante o programa, mas esta só ouviu quem acompanha nosso humilde programinha de rádio, que vai ao ar todo sábado a partir das 19H pela frequencia 104,9 FM em Aracaju e região, e na net via streaming em www.ideastek.net/aperipefm

Abaixo, a entrevista para o Noisey, na íntegra:

Noisey: É verdade que, quando você começou a fazer o zine Napalm, você nem sabia o que era conceitualmente um fanzine? Como foi que você se deu conta de que estava fanzinando?

Adelvan: Sim, é verdade. Eu nasci e morava em Itabaiana, cidade do interior do estado de Sergipe, e comecei a ser atraído pelo universo do rock através do que via na TV, principalmente – e quando eu falo TV, aqui, falo da TV aberta, pois na época, meados da década de 1980, não existia TV por assinatura. De vez em quando o Fantástico fazia uma matéria sobre o assunto e então subitamente a gente ficava sabendo que existia um bando de malucos autodenominados punks, em São Paulo, que tinham um comportamtento exótico e agressivo, e só. Com o Rock In Rio o estilo ganhou mais evidencia e eu comecei a me identificar com tudo aquilo. Tinha 14, 15 anos. Algumas revistas chegavam por lá, como a Bizz, Roll e Somtrês. Em Aracaju chegava a Rock Brigade, e foi através dessas publicações que eu fui me aprofundando naquele mundo, totalmente novo para mim. O ciúme que eu tinha de minha nascente coleção aliado à vontade de compartilhar as informações me levou a ter a iniciativa de fazer uma “apostilha” – sim, era assim que eu chamava! – xerocada para distribuir entre alguns amigos, na ânsia de que mais pessoas se interessassem também pelo assunto e eu tivesse, finalmente, com quem conversar. Era bem básico, apenas pequenas biografias de bandas clássicas, como Led Zeppelin, AC/DC, Metallica e Venom, mas, por ser feito no interior, algo bastante inusitado para a época, chamou a atenção dos proprietários da primeira loja especializada em rock no estado, a Disturbios Sonoros, que ficava em Aracaju. Eles me disseram que o que eu estava fazendo se chamava fanzine, uma espécie de revista de fã, e ajudaram a fazer uma tiragem maior – 100 cópias – da edição número 5, que passaram a vender na loja. Silvio, vocalista de uma das primeiras bandas punk/Hard Core do estado, a Karne Krua – em atividade até hoje – viu o zine por lá e decidiu me escrever. Ele me mandou uma pacote cheio de publicações, panfletos e informativos ligados à cena punk, e foi assim que eu fiquei sabendo que havia uma verdadeira rede subterrânea fazendo circular informações sobre um cenário do qual eu não fazia idéia da existência.

Noisey: O que rolou nesse hiato entre o Napalm e o Escarro Napalm? Você considera que as duas propostas têm parentesco entre sí?

Adelvan: Sim, O Escarro Napalm foi uma espécie de continuação mais amadurecida, na medida do possível, do meu fanzine anterior – cujo nome eu tirei da célebre casa noturna que havia em São Paulo. Eu cheguei inclusive a manter alguns correspondentes fora do estado, com o Napalm, mas  muito poucos, três ou quatro, no máximo. Parei porque entrei na faculdade e não tinha mais tempo nem dinheiro sobrando. Daí, já no início da década seguinte, em 1991, saí da faculdade e me mudei para Aracaju. Fiz minha primeira viagem a São Paulo – e ao Rio, fui a Rock in Rio II, no Maracanã – e fiquei deslumbrado com toda aquela movimentação. Na viagem de volta me lembro bem que observando aquele caos urbano, metrô, marginal, fui me dando conta de que poderia dar minha contribuição daqui mesmo do meu cantinho do mundo, e resolvi me integrar à cena local, ajudando a organizar shows e voltando a fazer um fanzine. Dessa vez com mais cara de “revistinha”, algumas folhas de papel A4/oficio dobradas e grampeadas na lombada. O “Napalm” era grandão, pesadão. O Escarro foi melhor planejado, fiz menor e com menos páginas para que pudesse tirar mais cópias. Lembro que tirei cerca de 20 cópias e mandei todas de uma vez para alguns enderêços que me chamaram a atenção na coluna “Run, Xerox”, da revista Animal, de quadrinhos, que eu colecionava, e foi assim que tudo (re)começou. A primeira pessoa que respondeu foi o Fellipe CDC, de Brasilia, de quem sou amigo até hoje.

Quando saiu a primeira edição do Escarro Napalm, qual sua periodicidade e quanto tempo durou?
1991. Durou até 1995. Teve 7 edições “regulares” e uma edição especial. Não havia uma periodicidade defininda, mas eu geralmente conseguia fazer um a cada 6 meses, aproximadamente. O número 2 eu fiz numa edição conjunta com o Buracaju, zine que Silvio, da Karne Krua, editava desde os anos 80. Foi bem legal porque foi meio experimental, Silvio tava a fim de fugir um pouco daquela estética punk engajada e então fizemos uma coisa bem livre, com os assuntos que nos viessem à mente. Assinamos, inclusive, alguns textos juntos, como um no qual criamos uma banda fictícia extreamamente radical, satirizando os extremos do underground.

Noisey: A que tipo de música e ideias o Escarro Napalm mais dedicava espaço?

Adelvan: Isso era curioso, porque pelo nome do zine muita gente esperava que focasse apenas em coisas como grindcore ou Hard Core, mas eu sempre fui bastante eclético e curtia muito o que na época chamávamos de “guitar bands”, por exemplo. Pixies, Sonic Youth, Nirvana, Dinosaur jr, Pin Ups, Killing chainsaw. Curtia muito rock industrial, também: Ministry, Nine Inch Nails, Laibach, e uma banda gaúcha chmada GDE – Grupo de Extermínio – da qual eu gostava muito. Focava na música independente, “underground”, mas num aspecto bastante amplo, diversificado. Numa mesma edição havia uma entrevista com o No Sense, de Santos, pioneiros do grindcore nacional, e uma matéria sobre o Second Come, do Rio. Do nordeste tinha muito contato com a Câmbio Negro HC e o Eddie, de Pernambuco, e a Living In The Shit, de Maceió. Fazia também pequenas biografias das bandas locais que eu mais curtia, como a já citada Karne Krua e o Camboja, uma espécie de projeto industrial lo-fi genial que eu ainda considero, até hoje, umas das bandas mais criativas e interessantes que já tivemos por aqui – e olha que o cenário local hoje é riquissimo e bastante diversificado. Mas o Camboja marcou demais na época. Era diferente de tudo.

Sempre abria espaço também para os quadrinhos. Era muito amigo do Joacy jamys, do Maranhão, grande desenhista. Ele fez uma das melhores capas do Escarro – as duas primeiras, tosquíssimas, eu mesmo desenhei, mas depois recebi excelentes colaborações de verdadeiros artistas talentosíssimos, como o Edgar S. Franco, de Minas, Cláudio MSM, do RS, Henry Jaepelt, de Santa Catarina, Alberto Monteiro, do Rio, e Yury Hermuche, que morava em Brasilia e hoje está radicado em São Paulo. Toca no Firefriend.

Noisey: Houve alguma publicação temática ou especial, com uma história curiosa ou diferente para contar? Como no caso do Esquizofrenia, que fez uma edição inteira dedicada ao Indie Sueco, e o Aaah!!, que chegou a ter mais de 50 páginas em um de seus números?

Adelvan: A última encarnação do Escarro foi uma edição especial gigante e meio megalomaníaca que eu chamei de DELIRIUM. Ficou tão grande que eu não tinha como grampear, então resolvi lançar encadernado em espiral com capa em acrílico! Não deixou de ser uma espécie de retorno às origens das “apostilhas”, mas desta vez bem mais caprichada e “charmosa”. Desnecessário dizer que ficou também muito caro, e por isso acabou tendo uma tiragem reduzidíssima. Acho que não chegou a 30 exemplares. Mas não tinha nenhum tema específico não, seguiu a linha do fanzine regular mesmo, falando um pouco de tudo – Nietsche, Lampião, pornografia e resenhas do Segundo Juntatribo por Andhye Iore, de Maringá, e do BHRIF – sensacional festival que aconteceu em 1994 em Belo Horizonte e que trouxe o Fugazi ao Brasil pela primeira vez.

Noisey: O que motivou o fim da publicação e com que outros projetos similares você se envolveu depois? Você se empolgaria a voltar a fazer fanzine hoje em dia, nos moldes dos zines atuais, que geralmente se dedicam mais a essa coisa de papéis e impressões híbridas?

Adelvan: Tenho notado isso, que os zines de hoje em dia estão, no geral, bastante elaborados, visualmente e em termos de texturas, com tipos de papel diferenciados. Faz sentido, é uma forma de se ter um “plus” em relação aos arquivos digitais. Mas isso não é exatamente uma novidade, está mais para uma tendência. Haviam zines bastante elaborados e em formatos criativos, com dobras diferenciadas, nos anos 90 também. Uma coisa que muita gente elogiava nos nossos fanzines, tanto os meus quanto os de Silvio, era a qualidade das cópias. Procurávamos sempre as melhores máquinas da cidade para valorizar nosso trabalho – que não era pouco. Tanto que muita gente achava que era impresso em gráfica! Eu ficava puto com o Jamys, por exemplo, que sempre mandava ótimos zines, muito bem desenhados e diagramados, mas em cópias horriveis, às vezes ilegíveis. Então essa preocupação com a estética existia. Nisso fui bastante influenciado por Silvio, ele era especialmente bom em diagramação e vivia experimentando novas técnicas para obter um resultado visual diferenciado, como por exemplo quando começaram a aparecer as xerox coloridas. Lembro que ele lançou alguns fanzines em xerox azul, e eu usei no DELIRIUM uma técnica que aprendi com ele para deixar a capa em duas cores: primeiro imprimia uma parte da imagem numa cor, no caso, preto, e depois outra imagem por cima em outra cor, no caso, vermelho. O resultado ficou bem legal.

O fanzine acabou por puro cansaço. Simplesmente não conseguia mais responder às pilhas de cartas que só faziam crescer e se acumular. Passei uns bons 10 anos, de 1995 a 2005, aproximadamente, trabalhando “nos bastidores”, digamos assim. Nunca deixei de frequentar a cena: tive uma loja especializada, ia a shows e apoiava os eventos na medida do que me era possivel, mas não tinha mais um veículo no qual pudesse me expressar. Tudo mudou à medida que a internet foi se popularizando, especialmente com a chegada dos blogs e das redes sociais. A principio exitei, era muita informação e eu me perguntava se o mundo realmente precisava de mais, mas aos poucos fui notando que a cena local, sim, carecia de mais e melhores registros. Então retomei o Escarro em formato de blog. Está lá, no ar. Atualizo sempre que posso. Produzo também um programa de rádio na emissora pública local, a Aperipê FM, que pode ser ouvido ao vivo on line todo sábado a partir das 19H em www.pdrock-sergipe.blogspot.com

Noisey: Qual era o seu envolvimento com a cena underground local à época do lançamento das primeiras edições? Você já tinha bastante acesso a novidades, ou já tinha essa coisa de ser um garimpador de música e uma veia politizada?

Adelvan: Aos poucos eu fui descobrindo a cena “alternativa”, frequentando os shows e fazendo novos amigos. Ás vezes ajudava a produzir, mas minha onda era mais a de registrar, mesmo, daí os fanzines. Em todo o caso, já cheguei a fazer parte de uma banda, um dos muitos projetos de Silvio – sempre ele – que se chamava ETC – depois 120 Dias de Sodoma – e era uma espécie de noisecore pornográfico com influencias de todo tipo, do rap aos ritmos regionais – antes do Raimundos e do mangue beat! Foi uma espécie de desabafo esporrento de Silvio contra o patrulhamento ideológico “politicamente incorreto” dos punks, ao qual aderi entusiasticamente.

O acesso às novidades era bastante restrito, pelas próprias limitações tecnológicas da época mesmo. O grande canal era o dos zines, através dos quais a gente ficava conhecendo antes, inclusive, algumas bandas e nomes que posteriormente teriam projeção maior, como o Pato Fu – tinha contato com o guitarrista John via carta – e a Pitty, que eu conheci no Inkoma. Tocava muito aqui naquele velho esquema DIY, “colaborativo”. Já os hospedei em minha casa, inclusive. Tudo foi mudando aos poucos, primeiro com a chegada da MTV, depois com a popularização da internet. Vivemos praticamente num mundo diferente, neste sentido, hoje em dia. Admirável mundo novo. Para o “bem” e para o “mal”.

Noisey: A distribuição das publicações começou via correio, vendas em lojas/shows? Como era essa parte? A tiragem era grande, costumava esgotar rápido?

Adelvan: A tiragem variava entre 100 e 150 cópias. Geralmente trocadas por outras publicações ou demos de bandas. Quase sempre via correio. Caso a pessoa estivesse interessada e não tivesse nenhuma produção a oferecer, a moeda de troca eram sêlos. Muitas vezes com cola, para que fossem reutilizados – lavava-se os sêlos para que o carimbo dos correios saísse.

Noisey: Se você fosse pontuar os cinco momentos/fatos/bandas/discos mais importantes da música que o Escarro Napalm teve a chance de registrar em suas páginas, quais seriam?

Adelvan: Entrevistei a Gangrena Gasosa – sou fã – e o Patu Fu em início de carreira – pirei quando ouvi o primeiro disco deles, o “rottomusic de liquidificapum”, que acabou chegando nas lojas daqui porque foi lançado pela Cogumelo, gravadora especializada em metal. Fui convidado, representando o nordeste, a participar de um seminário sobre fanzines durante o BHRIF, Belo Horizonte Rock Independe Fest, o festival que citei acima. Foram, provavelmente, os melhores dias da minha vida, pois a estrutura do evento era inacreditável. Dentre outras coisas, tomei chá com torradas com Ian McKaye do Fugazi enquanto ele dava uma entrevista para os camaradas Gabriela Dias, do zine/revista Panacea, e Eduardo Abreu, que fazia uma revista chamada 100 Tribos. Inesquecível.
Tenho também orgulho de ter ajudado a divulgar, na medida do possivel, as bandas daqui, como as já citadas Camboja e Karne Krua, e a Snooze. Fiz o primeiro informativo deles, em forma de fanzine.

Noisey: Qual a lição que a cultura dos fanzines dessa época em que o Escarro Napalm foi editado deixa para os veículos especializados em música da atualidade?

Adelvan: O “mal” do “mundo novo” a que me referi antes é justamente o excesso de informação, que deixa tudo confuso e, muitas vezes, nivelado por baixo. Tá tudo junto e misturado e isso, como tudo o mais na vida, traz um bônus e um ônus. O bônus é a democratização do acesso à informação, o ônus é a falta de um filtro. Também não é novidade, vinha muita merda inutil no meio das pilhas de zines que eu recebia mensalmente, atigamente. Mas, por conta do volume praticamente infinito de bytes ao qual temos acesso hoje em dia, fica mais difícil encontrar esse filtro. Mas aos poucos algumas publicações mais bem cuidadas e elaboradas vão se sobressaindo naturalmente, e as coisas tenderão a se normalizar, imagino. É uma luta constante esta, como a homogenização e o nivelamento rasteiro. Contra o “mais do mesmo”.

por Eduardo Ribeiro

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A Karne Krua

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Karne Krua, de Aracaju, Sergipe, é, muito provavelmente, uma das bandas punk mais antigas em atividade ininterrupta no norte e nordeste do Brasil. Nunca pararam! Posso atestar isso, já que os acompanho desde 1987, quando fui ao meu primeiro show de rock “underground”. Sobrevive às idas e vindas de componentes graças à persistência de Silvio, o vocalista e único membro original remanescente.

Idas e vindas que, felizmente, já cessaram há um bom tempo: a formação mais recente, com Adriano na bateria, Alexandre na guitarra, Ivo Delmondes no baixo e Silvio nos vocais, é uma das mais estáveis e duradouras. E, provavelmente, também a melhor, conseguindo o feito de superar a “clássica”, com Silvio, Marlio, Marcelo e Almada – aquela que definiu a sonoridade da banda e compôs verdadeiros hinos do Hard Core undergound nacional.

A Karne Krua existe desde 1985. Havia na época um cenário “roqueiro” pulsando nos submundos da cidade, herdeiro direto da nova onda do rock nacional que tomava conta do país. Vieram, no entanto, com uma proposta ousada para a provinciana capital do menor estado do país: radicalizar na postura e na sonoridade. Fazer punk rock e Hard Core cru, bruto e engajado. Fizeram barulho e chamaram a atenção, aglutinando ao seu redor toda uma nova cena com nomes como Manicômio, Condenados, Cleptomania, Logorreia, Forcas Armadas e Sublevação. Dessas, algumas tiveram vida curta e sumiram na poeira do tempo, deixando pouco ou nada para trás. Outras sobrevivem até hoje. Mas nenhuma com a força e a capacidade de se renovar e renovar seu público, de geração a geração, que a Karne Krua tem.

Como toda banda que dura tanto, passaram por várias fases e diferentes variações de sonoridade. Tudo devidamente registrado na farta discografia e “demografia”, que começou com a tosca “As Merdas do sistema”, alcançou uma certa maturidade com a clássica – embora ainda tosca – “labor Operário”, experimentou o primeiro gosto do profissionalismo com “Suicídio”, a primeira gravada em estúdio, no Recife, e se “consagrou” – na medida do possível para uma banda totalmente independente – com o primeiro registro em vinil, o LP auto-intitulado, de 1994.

O primeiro disco da Karne Krua está fazendo 20 anos de lançado e, apesar de seus defeitos gritantes – de gravação e mixagem, principalmente – é um clássico. Principalmente porque foi gravado ainda com a formação mais célebre – que logo depois se dissolveu definitivamente – e tem um repertório impecável, fruto da excelente fase pela qual passavam na época e que rendeu pérolas do quilate de “O vinho da História” e “A Noite do Deus morto”. Além disso, havia a bagagem que já vinham acumulando em quase 10 anos de atuação nos porões do punk rock nordestino, período no qual compuseram alguns clássicos que até hoje são cantados em coro nos shows: “America latina now”, “cenas de ódio e revolta” e “Sindicato”, dentre outras. Músicas que, para além da simplicidade dos acordes primários típicos do estilo, carregavam uma poesia improvável em suas letras, como na de “política da seca” – um lamento que, a meu ver, poderia constar tranquilamento ao lado de grandes canções icônicas sobre a tragédia do sofrimento do povo do nordeste, como “Asa Branca” e “A Triste partida”. Seus versos são um verdadeiro soco no estômago do conformismo e não me deixam mentir: falam de “pessoas castigadas pelo sol e pela fome” que “lamentam a dor de mais um ano que passou”. Porque “os miseráveis são fonte de renda, mão de obra barata. Voto Comprado. Essa é a grande armadilha, e deverá ser cultivada”.

O disco foi lançado tardiamente, numa época de transição para a industria da musica, do analógico para o digital. Não teve versão em CD e, muito por conta disso, teve uma repercussão reduzida. Hoje, no entanto, a situação se inverteu: é cultuado justamente por ser, além do primeiro registro “oficial” de uma banda clássica do cenário local e nacional, um dos poucos discos sergipanos a ter tido uma edição em vinil.

Seguiram em frente: ao longo das décadas de 1990 e 2000 foram absorvendo novos membros e novas influências, notadamente do Hard Core novaiorquino – Biohazard, Agnostic Front – e da música regional – o repente e o “aboio”, principalmente. Novas fitas demo foram lançadas – “Máscaras para o caos”, de 1997, e “Instantes Irreversíveis”, de 1999 – e finalmente, em 2002, o segundo disco, agora em CD: “Em Carne viva”. O lançamento aconteceu numa noite inesquecível daquele início de século, quando conseguiram o feito de lotar o Espaço Emes, maior arena de shows local, que já serviu de palco para nomes consagrados da música popular e do rock, como Roberto Carlos, Sepultura e Ana Carolina. Tudo registrado em vídeo e disponível em DVD.

O maior triunfo da banda, no entanto, ainda estava por vir: o álbum “Inanição”, uma verdadeira obra-prima do gênero em terras brasilis. Gravado num momento de transição, ainda com o grande baterista Thiago “Babalu”, que se mudou para São Paulo e hoje toca com Siba, ex-Mestre Ambrosio, e Alexandre, o guitarrista, fazendo também o papel de baixista, demorou uma eternidade para ser lançado. Só veio ao mundo em 2012, exatos dez anos depois do segundo. Mas valeu a pena a espera: trata-se de uma impecável coleção de canções que, alinhadas, traçam um impressionante painel de angustia e revolta diante das injustiças do mundo, do drama dos retirantes ao sofrimento dos animais usados em testes de laboratório. E tem, pelo menos, um novo clássico: a música título, “inanição”. Nele a banda consegue finalmente registrar todo o potencial que, até então, só se revelava em toda a sua plenitude em cima do palco. É um registro que não pode faltar na coleção de ninguém que se diga apreciador do combativo e altivo punk rock nacional.

Hoje, prestes a completar 30 anos de carreira ininterrupta, continuam tocando principalmente em sua cidade e regiões circunvizinhas, porque não têm estrutura nem suporte financeiro para vôos mais altos. Mas seguem vivo e ativos. Acabam de lançar um EP 7 polegadas – formato outrora popularmente conhecido no Brasil como “compacto” – em parceria com o “Besthoven”, de Brasília. Trata-se de um verdadeiro soco sonoro em forma de 4 músicas emendadas, uma espécie de “suíte” Hard Core versando sobre os horrores da guerra. A edição é caprichada, com prensagem de qualidade a cargo da renascida polyson, única fábrica de discos de vinil ainda em atividade no país, e uma excelente arte de capa de autoria de Thiago Neumman, o popular “Cachorrão”.

Às vezes eu tenho a impressão que a Karne Krua nunca vai acabar. Sei que sim – porque tudo, um dia, acaba. Mas torço para que não.

Que seja eterna enquanto dure, como dizia o poeta.

por Adelvan

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UM BRINDE AO EXCESSO!

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Tudo é excesso nessa verdadeira extravagância em forma de filme que é o novo de Martin Scorcese, “O Lobo de Wall Street”. O diretor parece realmente ter ligado o bom e velho botão de “foda-se” e filmado à vontade, sem limites, quase sem cortes, sem aparas de arestas. Estava, evidentemente, se divertindo. Praticamente brincando de fazer cinema. O resultado, como não poderia deixar de ser, é irregular – chega uma hora em que você meio que enche o saco ao ver mais uma cena de orgia sexual regada a drogas, ambição e cinismo em doses cavalares – mas, em muitos momentos, brilhante!

A própria estrutura do longa – e bote longa nisso, 3 horas de duração! – parece refletir o estilo de vida dos personagens retratados, operadores do mercado financeiro que não hesitam em passar por cima do que for preciso para obter o que querem: DINHEIRO! Dinheiro, dinheiro, mais e mais dinheiro. MUITO dinheiro. Utilizado única e exclusivamente para satisfazer seus desejos hedonistas, que, tenho que repetir: não têm limites.

A atuação de Leonardo DiCaprio é magistral. São várias cenas e diálogos antológicos com personagens coadjuvantes igualmente excelentes e muito bem interpretados – com evidente destaque para Jonah Hill, não por acaso indicado ao Oscar pelo papel do sócio alucinado fumador de crack! Mas vou destacar uma: aquela na qual ele tem que correr para casa depois de ingerir substâncias “ilícitas” que comprometem sua coordenação motora.

O filme foi, a meu ver, injustamente acusado de “glamourizar” a vida desregrada de seu protagonista. O suposto glamour está, na verdade, apenas retratado. E de forma farsesca, já que se trata, evidentemente, de uma paródia. O julgamento moral do que se vê na tela fica por conta do olhar de quem vê. Eu, por exemplo, fiquei mais com a impressão de que ele romantiza a atuação dos agentes federais, quase sempre mostrados como verdadeiros heróis a serviço bem, na velha escola maniqueísta de ver o mundo. O que não deixa de ser verdade, em determinados momentos, e a depender da situação. Só que nem sempre. Na maioria das vezes eles são apenas cães de guarda incumbidos de inibir os excesssos corrosivos para que o sistema, intrinsicamente injusto, não pare de funcionar.

O que é difícil de acreditar, mesmo, é que haja pessoas que se entreguem dessa maneira a tamanha insanidade. Mas parece ser tudo verdade. Em teoria, é, já que o filme se baseia na autobiografia do corretor da Bolsa de Nova York Jordan Belfort. A caricatura desenhada por Scorsese não é, portanto, tão irreal quanto parece. Não é por acaso que o mundo está do jeito que está, imerso num caos econômico, conceitual e moral. Porque o dinheiro, ao contrário do que diz o “guru” de Jordan no início do filme(Matthew McConaughey, numa participação tão rápida quanto fantástica), não é fictício. Ele existe. E se se concentra estupidamente nas mãos de alguns, é porque falta nos bolsos de muitos e muitos outros.

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50 Anos de Silvio Campos

Era uma vez um moleque de 16 anos meio deslocado e perdido no mundo que odiava o lugar onde morava e quase tudo o que via à sua volta, mas que não tinha muita noção de como colocar pra fora toda essa raiva. Até que ele entrou em contato com uma musica libertária e a adotou como sua forma de expressão – mesmo que não soubesse tocar nenhum instrumento e fosse um péssimo vocalista. O que restava? Escrever sobre. Mas ele também não era jornalista. Tinha, no entanto, o espírito que norteou o punk, do “faça você mesmo”, e resolver fazer uma “apostilha” para distribuir na cidade e, quem sabe, arrebanhar alguns companheiros naquela sua empreitada “roquística”. Ter alguém com quem conversar sobre o assunto, só isso …

O que ele tinha feito era um fanzine – uma “revista de fã”, artesanal – mas ele não sabia disso. Soube quando recebeu um pacote recheado de material semelhante produzido por todo o Brasil, remetido da capital, Aracaju – o moleque era eu, e morava em Itabaiana – por Silvio “suburbano”, vocalista da karne Krua, banda pioneira do punk rock/Hard Core local. Ali ele entrou em contato com uma verdadeira rede subterrânea de informação que ele não fazia a menor idéia de que existisse …

Este foi apenas o primeiro contato entre mim e essa grande figura, que eu conheci pessoalmente algum tempo depois ao finalmente visitar sua lojinha especializada, a Lokaos, que ficava na garagem de uma casa no Bairro Cirurgia. Ficamos amigos, e tenho orgulho em dizer que a amizade dura até hoje, passados quase 30 anos. Com ele aprendi muito, seja em conversas regadas a musica em suas lojas – agora é a Freedom, que fica na Rua Santa Luzia, numero 151, no centro de Aracaju – ou nas inúmeras viagens que fiz acompanhando a karne krua.

Hoje ele está completando 50 anos de vida. Ano passado fiz uma resenha do show – mais um! – que havia acabado de ver da Karne em Salvador, para marcar a data. Um “presente” pequeno, insignificante mesmo, já que Silvio é o tipo de cara com uma importância tão grande que qualquer coisa seria na verdade muito pouco para demonstrar o carinho que não apenas eu, mas todos os que estão, de alguma forma, envolvidos com o cenário musical independente local, temos por ele. Feliz Aniversário, “velho guerreiro”!

Por coinidência – ou não! – ontem fiz mais uma resenha de um show no qual ele estava à frente, como vocalista. Nem lembrava da data festiva – perdão, sou desligado desse tipo de coisa, datas e tal. Reproduzo-a abaixo, para repetir o gesto do ano passado – quem sabe, de repente vira uma “tradição” …

Num cantinho do mundo esquecido pelos holofotes da mídia de massas, a curva da coroa do meio ao lado do farol onde fica o Capitão Cook, de onde podemos sentir a brisa marítima e o barulho das ondas quebrando nas pedras, a Maquina Blues lançou seu mais novo “single” virtual no dia primeiro do corrente mês. Num mundo mais justo, muito mais gente conheceria e reconheceria este excelente “combo” blueseiro que desfila com um feeling sobrenatural um repertório autoral impecável, conduzido pela perfomance sempre visceral do já imortal Silvio Campos, verdadeiro pilar da musica alternativa de nosso estado.

Conheço Silvio há mais de duas décadas e posso atestar que, mesmo do alto de sua militância “roqueira” atuando principalmente nas hostes punk e Hard Core, ele sempre foi um cara aberto aos “bons sons”, de uma forma geral, e sempre nutriu o desejo de ter uma banda de blues. O sonho se materializou a partir do encontro com Melcíades, guitarrista talentoso e dedicado, e evoluiu a partir das raízes do estilo até se lapidar em composições próprias cheias de malícia e muita personalidade, incorporando elementos regionais sem “forçação de barra”.

Escudados por uma cozinha poderosa comandada pelo baixista Paulinho e pelo baterista Junior “Riqueza”, promoveram naquela noite uma verdadeira celebração, com um repertório próprio intercalado por versões de músicas de suas principais influencias confessas: Santana, John Lee Hooker e Celso Blues Boy, dentre outros. Executadas com maestria e arranjos diferenciados, com a cara da banda, sem, contudo, descaracterizar a melodia original.

Destaque para a execução de “Blues triste”, a excelente música título do single que estavam lançando, e para a participação de Adriano, ex-baterista e membro fundador, em uma das canções. Destaque também para o fato de que todos os que estavam presentes, num numero razoável, de acordo com o porte da apresentação, estavam REALMENTE presentes – lá dentro, vendo o show. Isso mesmo: não havia praticamente ninguém fora do bar, na já tradicional “Balada de porta” tão característica do local.

Outro tipo de público, certamente.

Um feito!

A.

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Marlio, o baixista

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Conheci a Karne Krua no II Festcore de Aracaju, o primeiro show de rock “underground” que fui em minha vida. O ano era 1988 e o clima estava tenso, com alguns punks radicais soteropolitanos, da banda Jesus Bastado, vociferando contra os Headbangers. Eu, ingenuamente, havia ido com uma camiseta do Slayer, do qual era fã. Marinheiro de primeira viagem, tabaréu do interior, confesso que arreguei: vesti a camiseta com a estampa ao contrário, na esperança de evitar uma abordagem mais direta – e agressiva. Mas uma pessoa, em especial, parecia ter ido pra provocar mesmo: estava com uma camiseta – belíssima, por sinal – do Metallica. Os tais radicaloides de plantão ficaram só olhando feio de longe, mas não ousaram partir para o ataque …

Fiquei surpreso ao ver o tal “provocador” subir no palco para tocar baixo com a Karne Krua – que eu achei sensacional, tão boa quanto o Cólera – era o que vinha à minha mente, pois o Cólera era minha primeira, praticamente única, na época, referência em termos de punk rock nacional. Fiquei com uma imagem muito positiva daquela figura. Um cara de atitude …

Algum tempo depois conheci Marlio pessoalmente numa das primeiras de muitas visitas que fiz à Lókaos, loja do vocalista da Karne, Silvio “Suburbano” – o “Imperador do Hardcore”(releve, piadinha interna) – num final de tarde, depois do expediente. Já de primeira ele e sua simpaticíssima esposa, Tânia, me convidam para tomar café em sua casa! Fui, ora. Tava morando só aqui, comia de qualquer jeito na rua. E foi aí que começou uma grande amizade que dura até hoje.

Marlio cedeu, por muito tempo, sua residencia para ensaios da Karne Krua e de algumas bandas de amigos, como a Camboja, de Jamson Madureira, e a ETC, montada por Silvio e da qual fui o vocalista. Isso só fez reforçar os laços de amizade, que não se romperam mesmo quando ele se mudou para o Recife, onde montou uma loja especializada em Skate e rock, a Curinga. Começou, também, a tocar na Câmbio Negro HC, o que faz dele a única pessoa do mundo a ter sido membro fixo das duas mais importantes bandas de punk rock e Hard Core do nordeste. Com o devido respeito a todas as demais, evidentemente …

Hoje ele está ainda mais longe, morando em São Caetano do Sul, ABC paulista. Mas ainda é meu amigo. Faço questão de visitá-lo toda vez que vou a São Paulo – o que, infelizmente, não acontece com a freqüência que eu gostaria. Amizade verdadeira é assim: persiste, apesar dos pesares e das dificuldades, como a distancia. A lamentar, apenas, o fato de que ele tenha aposentado o contrabaixo. Um desperdício. Era um cara talentoso e esforçado, apesar da notória e assumidíssima preguiça – da qual compartilho entusiasticamente, diga-se de passagem.

Amanhã, no programa de rock, tocarei uam faixa de minha demo tape preferida da Karne Krua, “Labor Operário”, em homenagem a essas duas grandes figuras, Silvio e Marlio, que aniversariaram esta semana. Silvio fez 50 anos muito bem vividos. Marlio? Mistério …

19H, 104,9 FM em Aracaju e região.

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